sexta-feira, 8 de agosto de 2014

HISTÓRIA DAS IGREJAS CRISTÃS

CAPÍTULO IX

OS BATISTAS
A história dos batistas coincide com o final da história anabatista do século XVI. Na verdade é uma clara continuação das igrejas fiéis desde os tempos apostólicos até hoje. Escritores há, que movidos de inveja, e até mesmo de uma certa ignorância do caso, e outros, batistas, que não se importam com a origem de sua denominação, desejam dar aos batistas um começo no século XVII. Para tanto distorcem a história de algumas igrejas batistas, principalmente da Inglaterra, usando ora John Smith, ora Tomas Hellys como fundadores do movimento. Sinto em informar aos que concordam com essa idéia que estão errados ou mal intencionados a respeito da origem e história dos batistas.
A ORIGEM DOS BATISTAS
Podíamos simplificar e dizer que os batistas se originaram com os apóstolos. E é a pura verdade, pois, os apóstolos foram batistas, ou seja, batizavam. Mas os batistas tem sua origem nas igrejas antes denominadas de "anabatistas". É uma continuação do apelido. A única coisa que muda é o prefixo "ana", e este não caiu de uma hora para outra, foi um processo que levou quase cem anos para acontecer. A prova disso é a declaração do bispo Hosius, no concílio de Trento que chamou os anabatistas de "batistas", já em 1554. E nos Estados Unidos, a Igreja Anabatista de Newport foi fundada em 1639, e dez anos depois mudaria seu nome para igreja batista de Newport. Portanto, são 85 anos de transição de um nome para o outro.
O fundador da Igreja Batista foi Jesus Cristo. Continuada pelos apóstolos ela teve uma grande ruptura em 225, quando as igrejas infiéis precisaram ser excluídas - que eram os católicos romanos e ortodoxos. Outra ruptura veio em 313, quando muitas igrejas fiéis aceitaram se unir com o Estado. Foram os batistas massacrados pelas igrejas infiéis durante treze séculos, tendo como apelido mais comum o epíteto de "anabatistas". No século XVII ela tem novo apelido, que é o de batista. Continuou sendo perseguida e só teve paz no século XVIII. Foi a partir dessa época que ela realmente conseguiu uma certa liberdade e cresceu, chegando hoje a milhões de adeptos espalhados em mais de duzentos países. Foi a primeira denominação a lançar um missionário na era moderna com Willyan Carey. Foi a primeira denominação a requerer liberdade religiosa a todas as denominações. É e continuará sendo uma igreja que segue princípios puramente bíblicos, os mesmos princípios dos seus antepassados anabatistas, os quais herdaram os princípios das igrejas apostólicas.
A DECLARAÇÃO DE ESCRITORES NÃO BATISTAS SOBRE SUA ORIGEM
O Cardeal Hosius, católico, 1554, presidente do Concilio de Trento, escreveu: (Orchard s History Baptist, seção 12, parte 30, página 364)
"Não fosse o fato de terem os batistas sido penosamente atormentados e apunhalados durante os doze últimos séculos e eles seriam mais numerosos mesmo que todos os que vieram da Reforma".
Notem que a data é de 1554, ou seja, quase setenta anos a menos que os escritores errados afirmam o início da primeira igreja batista. Este bispo já chamava os anabatistas de batistas, e para ser bem sincero, é mesma coisa na prática religiosa. Sou batista porque? Porque batizo todas as pessoas que desejam fazer parte de uma igreja batista. Eles eram anabatistas porque? Porque rebatizavam os católicos. Não é de fato a mesma coisa?
Outra coisa interessante dessa declaração (e é preciso lembrar que foi o presidente de um concílio católico que durou de 1545 até 1563) foi o fato de Hosius mencionar a data de quanto tempo eles já haviam sido perseguidos, ou seja, doze séculos antes desta data. Então, 1554, menos 1200 anos, é igual a 324, data do início da perseguição das igrejas fiéis (ou anabatistas) pelas igrejas infiéis ou erradas (os católicos).
Note que ele não diz a data da origem dos batistas. Diz a data da origem da perseguição que eles sofreram. A data, como já dissemos, está primeiramente em Jesus, e depois na exclusão das igrejas infiéis em 225.
O bispo Hosius também faz uma diferença clara entre "batistas" e os que "vieram da Reforma". Hosius sabia muito bem que os batistas não eram reformistas nem protestantes. Eram a igreja original, não poluída, não dividida, a verdadeira igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Moshein, um dos maiores escritores da história luterana, testifica:
(Eccl. Hist. Cent. 16, secção 3, parte 2, capítulo III. Fuller Church History B.4)
"Antes de se levantarem Lutero e Calvino, estavam ocultas, em quase todos os países da Europa, pessoas que seguiam tenazmente os princípios dos modernos Batistas Holandeses".
"Vasto número dessa gente, em quase todos os países da Europa, preferiam perecer miseravelmente por afogamento, fogueira ou decapitação, do que renunciar as opiniões que abraçaram... É realmente verdade que muitos anabatistas foram mortos, não por serem maus cidadãos, nem membros malfazejos da sociedade civil, mas apenas por serem hereges incuráveis, condenados pelas antigas leis canônicas. Pois o erro de batismo de adultos era, naquela época, considerado uma ofensa terrível"
Esta declaração é muito útil porque vem de um autentico protestante. Já que muitos gostam de afirmar que os batistas são protestantes, esse protestante, um luterano, está afirmando que os batistas já existiam antes de se levantarem Lutero e Calvino.
Enciclopédia de Endinburg (autor presbiteriano).
"Nossos leitores percebem agora que os batistas são a mesma seita dos cristãos que antes foram descritos como Anabatistas. Realmente parece ter sido o seu princípio dominante desde o tempo de Tertuliano até o presente".
Apesar de chamar os batistas de "seita", este presbiteriano, querendo uma veracidade de datas em sua narração da origem dos batistas, não pode negar de onde eles surgiram, ou seja, das igrejas anabatistas. Ele é firme em afirmar que "são a mesma seita", para nós, a mesma igreja. Além do que ele data sua origem na pessoa de Tertuliano (160-230 d.C.). Essa é a data que este tratado dá para o aparecimento do primeiro grupo de anabatistas - os montanistas, em cerca de 160 (ver página 11 sobre os montanistas).
Sir Isaque Newton, 1710, escreveu.
"Os batistas são o único corpo de cristãos que nunca tiveram similitudes com Roma".
Este anglicano, um grande inventor, nada tem a ver com a história da religião. O que vale a pena ressaltar é a data de sua declaração e a firmeza em que ele separa os batistas como a única igreja que não saiu de Roma. Nessa época havia mais cinco denominações reconhecidas: Luteranos, Anglicanos, Congregacionais, Presbiterianos e Ortodoxos.
Não existe dúvida. Os batistas são a continuação das igrejas fiéis (ou anabatistas) que excluíram as igrejas infiéis (ou católicas) em 225. Sua origem é esta. Somente os opositores, e os batistas ecumênicos, serão contrários a esta tão grande realidade.
Enciclopédia Britanica Barsa, relata:
"Esse nome é uma forma abreviada da palavra anabatista. É um nome dado pelos seus adversários as várias seitas que negavam a validade dos batismo das crianças".
PERSEGUIÇÃO AOS BATISTAS
A história dos batistas é toda regada com o sangue dos seus mártires. Da mesma forma que seus antepassados, os mártires pós-apóstolicos, sofreram nas mãos do império e dos judeus, colocando-os nas prisões e nas arenas para serem engolidos pelos leões, e também seus antecessores, os anabatistas, sofreram toda sorte de atrocidades e torturas nas mãos dos católicos, os batistas sofreram horrores nas mãos dos católicos e protestantes por um longo período de tempo. Onde uma igreja batista era descoberta ou estabelecida, logo vinha a perseguição, e com ela a morte dos batistas.
A Perseguição na Inglaterra
Até o ano de 1534 a Inglaterra foi um país católico. A partir desta data, liderados pelo rei Henrique VIII, os ingleses passaram a ser protestantes, mais precisamente pertencentes a Igreja da Inglaterra, conhecida como Episcopal ou Anglicana. Os templos católicos tornaram-se templos anglicanos. Padres foram muitas vezes transformados em pastores. O batismo foi o mesmo dos católicos, infantil e por aspersão. Os batistas, vendo tanta coisa errada, nunca aceitaram a igreja anglicana como uma igreja de Jesus. Seus pastores batizavam todos os que vinham do catolicismo ou do anglicanismo. Isso pareceu ruim aos olhos do rei e dos pastores anglicanos. Por isso ficou resolvido pelos anglicanos que os batistas precisavam morrer.
Muitos pastores e membros das igrejas batistas foram cruelmente mortos pela igreja anglicana. De 1534 até 1688 a igreja anglicana comandou o ato de intolerância contra as igrejas batistas. Foi nesta época que viveu John Bunyan. Neste período a perseguição era geral. As igrejas batistas não tinham o direito legal de existir, e quando descobertas, eram fechadas e destruídas. Não é por um acaso que muitas igrejas batistas, tanto na Inglaterra como no País de Gales, mudavam-se inteiramente para a América do Norte.
A partir de 1688 foi permitido aos batistas realizarem seus cultos publicamente, sem é claro, atormentar a igreja anglicana. Isso era coisa impossível aos batistas. Como pregar Jesus sem mostrar o pecado? Como ensinar a Bíblia sem mostrar o erro? O ensinamento da Bíblia, foi, muitas vezes, o fator principal das perseguições contra os pastores batistas. Apesar dessa tolerância era negado aos batistas o direito de ter acesso a cargos públicos, bem como ao parlamento. Somente em 1818 foram os batistas munidos deste direito. Mesmo assim não eram considerados válidos o registro de nascimento (pois negavam dar suas criancinhas ao batismo anglicano), e o registro de casamento (pois não casavam-se diante de um pastor anglicano e numa igreja anglicana). A intolerância do registro de nascimento só foi revogada em 1836, e a de casamento em 1844. Porém ainda não podiam ser aceitos nas Universidades de Cambridge e Oxford. Até este tempo os filhos dos dissidentes não possuíam o direito de acesso em nenhuma das grandes instituições. O ato de libertação veio somente no ano de 1854.
Alguns escritores tem revelado ao mundo um pouco das atrocidades sofridas pelos batistas nas mãos dos católicos e dos protestantes da Inglaterra. O Missionário W.C. Taylor relata no Manual das Igrejas Batistas, pg 149-151, que:
"Desde o século XII até o século XVII, muitos batistas sofreram perseguição e morte por meio da fogueira, do afogamento, da decapitação, além de outros métodos, que algumas vezes importavam em torturas desumanas. E isso sofreram dos papistas como dos protestantes..."
"Escreve Brande que: No ano de 1538, trinta e um batistas, que haviam fugido da Inglaterra, foram executados em Delf, na Holanda; os homens foram decapitados, e as mulheres foram afogadas (History of Reformers pg 303)..."
"O bispo Latimer declara que: Os batistas que foram queimados em diferentes partes do reino, seguiam para a morte intrepidamente, sem qualquer temor, durante o tempo de Henrique VIII. (Neals History of Puritans, V. III, pg 356)..."
"O Dr. Featley, um dos seus mais figadais inimigos, escreveu a respeito deles, em 1633: Essa seita, entre outras, até agora tem presumido da paciência do Estado, a ponto de organizar convenções semanais, rebatizar centenas de homens e mulheres juntos, de madrugada, em riachos, e em alguns braços do Tamisa e noutros lugares, imergindo-os completamente. Tem imprimido diversos panfletos em defesa de sua heresia; sim, e tem desafiado alguns de nossos pregadores a disputa. (Eng. Bapt. Jubilee Memor. Benedicts Hist. Baptist, pg 304)."
Das muitas histórias de pastores e igrejas batistas perseguidos na Inglaterra durante os anos de 1534 a 1688, há uma que até hoje tem comovido o mundo todo. É a história do pastor John Bunyan, ganho para Cristo após o árduo trabalho de sua esposa (uma batista), que lhe trazia a Bíblia e livros para ler. Em 1653 ele batizado foi pela Igreja de Bedford. Desde então sua vida é um exemplo de fé e firmeza nas tribulações. O relato abaixo foi extraído do livro "A História das Religiões", de Cherles Francis Pother, páginas 468-469, de 1944:
"Pregava havia já quatro anos quando Carlos II subiu ao trono na Inglaterra e restaurou o episcopalismo. Os pregadores puritanos teriam de conformar-se ou suspender os sermões. John Bunyan recusou-se a obedecer, sendo condenado a doze anos de prisão. Lograria a soltura em qualquer tempo desde que se comprometesse a não mais pregar, mas dizia com desassombro que, uma vez livre, pregaria na primeira oportunidade. Não o demoveu fome da esposa e dos filhos, sendo um deles uma menina, cega. Conseguiu ganhar algum dinheiro na cadeia fabricando cadarço compridos de fio de linho de pontas rematadas, os quais eram vendidos por sua filhinha cega.
Até na prisão Bunyan pregava aos companheiros. Tinha consigo apenas dois livros: Livro dos Martires, de Fox, e a Bíblia. Veio então grande inspiração e escreveu O Peregrino. Promulgada a declaração de indulgencias, foi Bunyan posto em liberdade, e logo depois eleito pastor de sua velha igreja. Três anos depois a declaração foi renovada, voltando Bunyan para a prisão por ser pastor não conformista".
John Bunyan não foi o único. Simplesmente é o mais conhecido. Antes de Bunyan muitos batistas padeceram o martírio. Tomas Hellys por exemplo, apenas três anos após a fundação da Igreja Batista de Spitalfields, em 1612, foi martirizado a mandato dos bispos anglicanos em 1615. John Smith, outro fundador de igrejas batistas, e um autentico anabatista por ter sido batizado na época em que as igrejas batistas ainda eram chamadas por esse epíteto, foi martirizado em 1612, apenas três anos após da fundação de sua primeira igreja. Edward Wightman, de Burton-sobre-o-Tento, condenado pelo bispo de Coventry, foi queimado em Litchfield, a 11 de Abril de 1612. Estes são alguns dos muitos casos de pastores ou membros batistas mortos por católicos e protestantes.
A Perseguição na Nova Inglaterra (Estados Unidos).
Como as perseguições na Inglaterra estavam aumento no período de 1534 a 1688, foi o jeito de muitos anabatistas-batistas deixarem este país e rumarem para os Estados Unidos. Viam na América uma nova Canaã. E acertaram. Muitos pastores pregavam a emigração em massa. Igrejas inteiras foram transferidas da Inglaterra e do País de Gales para os Estados Unidos.
O primeiro grupo de batistas a emigrarem ainda eram conhecidos como anabatistas. Veja o relato do livro "A História das Religiões" página 489:
"Um outro grupo correu para Providence, logo nos primórdios da existência deste centro, não só foi bem acolhido por Roger Williams, como logrou sua adesão. Este grupo era o dos Anabatistas, ou como são mais conhecidos, batistas".
Provavelmente esse grupo veio junto com os puritanos do Mayflower em 1620. Mas descobertos pelos puritanos de Boston foram expulsos de lá em pleno inverno rigoroso de 1638. Negavam-se a entregar suas crianças para o batismo infantil dos presbiterianos e dos congregacionalistas. Encontraram em Roade Island um abrigo para sua fé. Formaram uma igreja anabatista em Newport neste mesmo ano. No ano seguinte fundaram uma igreja batista em Providence. Tinham como pastor John Clark, um homem de princípios e verdadeiro baluarte da fé. Também é desta igreja o conhecido Obadias Holmes, que foi o sucessor de John Clark no ministério. O pastor J.M. Carrol, no seu livro O Rasto de Sangue, página 47, assim narra as perseguições sofridas por Holmes e seus companheiros diante da Igreja Congregacional em Massachussets Bay:
"Com respeito às perseguições em algumas das colônias americanas vamos mencionar alguns exemplos. De certa feita, estava enfermo um dos membros da Igreja de John Clark. A família morava na Colônia e um pregador visitante de nome Crandall e um leigo de nome Obadias Holmes, foram visitar a família enferma. Enquanto eles estavam realizando um culto de oração com a família doente, um oficial ou oficiais da colônia prenderam-nos e mais tarde foram apresentados perante o tribunal para serem processados. Também está dito na história que para arranjar uma acusação mais forte contra eles, foram levados para uma reunião religiosa da Igreja Congregacional, tendo as mãos amarradas. A acusação deles foi a de não tirarem seus chapéus num serviço religioso.
Todos foram processados e condenados. O governador Endicott está presente. Zangado disse a Clark, durante o julgamento: - Tendes negado o batismo infantil (isto não era acusação contra eles). - Mereceis morrer. Não quero um traste deste na minha jurisdição. Como pena deviam pagar uma multa ou serem açoitados. A multa de Crandall (o visitante) foi de cinco libras; A pena de Clark foi de 20 libras; A multa de Holmes (os registros dizem que ele foi congregacional antes de se tornar um batista) foi de 30 libras. As multas de Clark e Crandall foram pagas por amigos. Holmes recusou igual obséquio alegando que não havia errado, razão porque foi bastante chicoteado. Os arquivos dizem que ele se despira até a cintura e que foi açoitado (com chicote tipo especial) até que o sangue lhe cobriu as costas, descendo pelas pernas até lhe encher os sapatos! "
O Dr. J.M. Carrol ainda relata outra história de perseguições sofridas pelos batistas na América, e desta feita o perseguido o pastor Jaime Ireland, página 49:
"A Virgínia foi o segundo lugar no mundo onde a liberdade religiosa foi adotada, seguindo a Rhode Island. Mas isto foi um século mais tarde. Antes disto, cerca de trinta pregadores em tempos diferentes foram presos, tendo como única acusação contra si o fato de pregarem o Evangelho do Filho de Deus. Jayme Ireland é um exemplo. Ele foi preso... Depois disto os seus inimigos tentaram matá-lo a pólvora. Tendo falhado neste primeiro esforço quiseram sufocá-lo até a morte, usando enxofre, que ardia sob as janelas da prisão. Tendo falhado outra vez, tentaram envenená-lo com o auxílio de um médico. Tudo falhou. E Ireland continuou a pregar para o seu povo das janelas da prisão. Um muro foi construído em redor da cela para impedir que o povo o visse ou fosse visto por ele, mas esta dificuldade foi vencida. O povo amarrou um lenço à ponta de uma comprida vara a qual era levantada para mostrar a Ireland que todos estavam reunidos. As pregações continuaram."
Hoje os Estados Unidos é o país mais evangelizado do mundo. Os batistas são o maior corpo denominacional do país, com milhões e milhões de adeptos esparramados em todo canto das terras americanas. Mas nem sempre foi assim. A liberdade aos batistas só veio em plena pujança no século XVIII. O Dr. J.M. Carrol traça um exemplo de como o Estado da Virgínia chegou dar liberdade religiosa aos batistas, página 49:
"Em Virginia foi promulgada uma lei dando permissão aos municípios de terem um pastor batista, mas somente um. O pastor poderia pregar uma só vez de dois em dois meses. Mais tarde esta lei foi modificada permitindo a pregação uma vez cada mês. Mais ainda assim em um só lugar do Município e um único sermão naquele dia mas nunca pregado à noite. Outras leis foram passadas não somente na Virgínia, mas em outros lugares, proibindo qualquer trabalho missionário".
Hoje muitos desprezam o sentido denominacional dos batistas. Eles se esquecem que se hoje a Bíblia pode ser lida com liberdade é fruto de um laborioso trabalho de persistência dos batistas, sim, daqueles pastores que deram seu sangue para podermos receber a Bíblia, o livre direito de culto e o correto ensino das escrituras. Dependesse de Calvino e Lutero estaríamos presos às correntes da escravidão protestante que varreu o norte da Europa. Dependesse do catolicismo estaríamos presos às correntes da escravidão e idolatria que sempre habitou no Sul da Europa e de lá foi transportada para as Américas.
O TRABALHO MISSIONÁRIO DOS BATISTAS
Não podemos chamar a vinda dos batistas ingleses para a América como uma obra missionária. Podemos chamá-la de uma emigração. Dois fatores contribuíram para uma demora de uma organização missionária dos batistas. Primeiro que a Inglaterra era um país com grande influencia no mundo. Aparentemente isso poderia ajudar na obra missionária dos batistas. Mas é só nas aparências. Sua influencia podia ajudar os anglicanos e posteriormente os metodistas. Já os batistas não impunham a sua fé a ninguém. Aos batistas importava propor e não impor o evangelho aos países conquistados pelos ingleses. Devido a antipatia dos morados nativos pelos ingleses as missões tipo da dos batistas era muito difícil. O segundo fator era a pobreza que pairava nas igrejas batistas. Com seus direitos civis cassados a maioria dos seus membros era gente pobre e humilde. Mesmo assim, enfrentando todos estes obstáculos, cabe aos batistas o troféu de serem a primeira denominação cristã a enviar um missionário na Era Moderna.
MISSÕES BATISTAS NA ÍNDIA
No final do século XVIII, o elemento humano usado por Deus para o início da obra missionária foi um jovem pastor chamado Willyan Carey. Ele foi mencionado no livro Instituições Religiosas, pg 103, onde se lê: "Os batistas ingleses foram os primeiros, como Willyan Carey, a organizar, em 1792, missões em países não cristãos (África, China, Índia) por intermédio da Baptist Missionary Sociat". Era ele sapateiro de profissão, mas como tinha intensa curiosidade intelectual, extraordinária vontade de pregar, logo se tornou conhecido das igrejas e foi ordenado ao ministério batista. Como as igrejas que pastoreavam eram pobres e não podiam dar sustento integral, permaneceu durante algum tempo como sapateiro. Junto a sua banca de sapateiro tinha mapas, por ele mesmo confeccionados, em que fitava constantemente os países do mundo até onde o evangelho não tinha chegado. Sentia profundo amor no coração pelos pagãos que estavam morrendo sem Cristo. Finalmente conseguiu transmitir suas preocupações a diversos colegas de ministério, e assim foi fundada, em 1791, uma sociedade missionária.
William Carey foi nomeado missionário, juntamente com John Thomas e em 1793 seguiram para a Índia. A ida de Carey para as Índias não agradou os comerciantes ingleses. Estes não viam com bons olhos a obra dos missionários, porque temiam que, convertendo-se ao cristianismo, os índios se tornassem menos fáceis de serem explorados. A companhia das Índias tudo fez para prejudicar os missionários e, finalmente, conseguiu um decreto pelo qual não era permitido mais o embarque de missionários da Inglaterra para a Índia. Nada impedia, entretanto, que os candidatos a obra missionária embarcassem para a América e de lá, para a Índia. Foi o que fizeram. Na América, entretanto, enquanto esperavam navios que os levassem à Índia, punham-se em contato com as igrejas batistas norte-americanas, e esse contato incentivou a realização de um trabalho missionário próprio dessas igrejas.
MISSÕES BATISTAS NA BIRMANIA
As Índias não foram o único alvo missionário dos batistas. William Ward, companheiro de Carey, encontrou com um missionário Congregacionalista no navio para as Índias. Admirado da fé de Willyan, o missionário Adoniram Judson e sua esposa Ana, converteram-se e foram batizados. Naquele tempo a maioria dos batistas faziam a coisa certa, davam muita consideração à forma, ao desígnio, ao candidato, e ao administrante de um batismo. Coisa semelhante aconteceu com outro pastor congregacionalista, Luther Rice, que também no navio converteu-se juntamente com Adoniram e foi batizado. Assim, em 1813, Adoniram foi para a Índia, e seguiu um pouco além para a Birmania, onde se tornou um grande missionário. Sua história pode ser encontrada em livros como "Ana de Ava", uma autobiografia do trabalho feito pela sua própria esposa. Adoniram Judson, além de missionário foi também um homem "das letras". Fez um dicionário birmanes e traduziu a Bíblia para esse idioma.
A UNIÃO DAS IGREJAS BATISTAS EM PROL DAS MISSÕES
Luter Rice voltou aos Estados Unidos, onde pediu ajuda das igrejas batistas da América para se sustentar. Seu pedido foi prontamente atendido, e o maravilhoso trabalho desempenhado por Judson e Rice fizeram que as igrejas batistas se organizassem numa Associação para poderem melhor atender as necessidades dos missionários, como também para a formação de novos missionários americanos. Essa associação foi denominada Convenção Geral da Denominação Batista nos Estados Unidos para Missões no Estrangeiro. Não podemos confundi-la com as atuais convenções batistas hoje existentes nos Estados Unidos. Esta missão tinha um sentido puramente missionário. Visava os missionários. Era uma coisa simples e quando deixou de existir (foi substituída por outra) contava com 99 missionários no estrangeiro e 82 igrejas organizadas.
A Sociedade fundada por Willyan Carey não era exatamente uma cooperativa de igrejas. Era uma sociedade onde pessoas se juntavam para mandar missionários. A de Carey tinha doze pessoas quando foi fundada.
O TRABALHO MISSIONÁRIO BATISTA NOS DIAS ATUAIS
Atualmente existem várias convenções e missões batistas organizadas em prol da evangelização dos perdidos. A maior de todas é a Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos. Todas elas tem desempenhado um papel importante em abrir novos trabalhos batista pelo mundo. Para poderem melhor se organizarem e melhor organizarem seus trabalhos foi formada a Aliança Batista Mundial em 1905. A intenção inicial era a de ligar as igrejas batistas numa cooperativa de igrejas que juntam-se para realizarem trabalhos missionários e outras atividades adjacentes.
Porém a existência da Aliança Batista Mundial é uma faca de dois gumes. Por um lado é bom, pois dá oportunidade de convenções se unirem e juntarem forças para trabalhos mais complicados. Também é bom para que cada convenção ou missão se conheça melhor. A Bíblia diz que é melhor serem dois do que um, e uma liga de três não se quebra tão facilmente. Muitos trabalhos missionários, em lugares estratégicos, tem sido abertos e sustentados pela Aliança. Não podemos deixar de dizer o quanto isso é maravilhoso diante dos olhos de Deus. Por outro lado causa um certo temor. Muitos batistas errados estão infiltrados nesta Aliança. Não dá para saber quem é quem. Outro fator negativo é que o trabalho algumas vezes é direcionado para o lado ecumênico, o que faz o nome Batista estar ajuntado com outras denominações erradas e antibíblicas. Outro lado ruim é a visão missionária da Aliança. Muitas vezes, na intenção de formar organizações para-eclesiásticas, o trabalho missionário fica em segundo plano.

Afora as convenções e missões existentes, os batistas tem o privilégio de terem muitos pastores independentes. São missionários enviados por igrejas não filiadas a uma missão ou convenção. Não são poucos no Brasil, e estão espalhados em diversos pontos do mundo. A forma mais original dos batistas estão bem exemplificados no comportamento e nas igrejas edificadas por estes pastores. O fruto destes é um fruto permanente, e Deus tem certamente um plano especial para esta forma primitiva de ser cristão, e quem sabe o resgate da denominação num futuro próximo. Da mesma forma que as muitas convenções se gabam de ter grandes homens que trabalharam para o Senhor, os independentes muito mais, pois, cada missionário independente tem que ser homem de muita coragem e de muita fé no Senhor Jesus.