segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 24: A Sabedoria de Deus


INTRODUÇÃO


A sabedoria de Deus é outro dos seus atributo intelectuais [Jó 12.13], o qual também nos foi comunicado; de forma que o homem pode, ainda que não perfeitamente, como Deus, apresentar-se sábio em muitos momentos. Normalmente temos a impressão de que conhecimento e sabedoria são sinônimos, quando, ainda que estejam relacionados, os seus conceitos e aplicações são diferentes. Por exemplo, um homem inculto pode ter grande sabedoria, enquanto um erudito pode não passar de um tolo. O conhecimento é proveniente dos estudos, logo, teórico, enquanto a sabedoria é a capacidade intuitiva de se conhecer as coisas, logo, prática. Pode-se concluir que o conhecimento não depende da sabedoria, um homem pode tê-lo sem que seja necessário usá-lo, enquanto a sabedoria dependerá sempre de algum conhecimento anterior à aplicação.

Mas, o que significa mesmo a palavra sabedoria?

A sabedoria está sempre ligada ao conhecimento, ainda que se discuta a aplicação de um termo melhor, sapiência. Do ponto de vista filosófico, sabedoria refere-se tradicionalmente à conduta racional nas atividades humanas, a possibilidade de dirigi-las da melhor maneira possível. Platão a identifica com sapiência, de forma que não há distinção entre elas, definindo-a como "a mais elevada e, sem a menor dúvida, a mais bela, pois trata da organização política e doméstica, à qual se dá o nome de prudência e justiça" [O Banquete, pg 209]. Aristóteles distingui-a de sapiência, considerando-a o "habito prático e racional que diz respeito ao que é bom ou mau para o homem" [Ética, VI, 5, 1140 b 4]. Como o homem é mutável, por conseguinte, a sua sabedoria também, Aristóteles distingue-a da sabedoria que está acima de tudo, a qual é elevada e divina, portanto, imutável, sendo sempre a mesma. Parece-me que tanto Platão como Aristóteles definem sabedoria como a capacidade do homem viver uma vida virtuosa, prudente, e capaz de discernir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o verdadeiro e o falso. Isso está em acordo com o que a Bíblia nos revela àcerca da sabedoria.

No A.T. a sabedoria se aplica comumente aos homens, como a capacidade dada por Deus para que eles coloquem-no, em suas vidas, no lugar correto e apropriado. A começar pelo temor do Senhor [Jó 28.28, Pv 9.10]. E assim, aqueles que conhecem a Deus refletirão nas questões práticas da vida o seu caráter pessoal, santo e justo, ou seja, o homem aplicará, no seu cotidiano, o ensino revelado por Deus; implicando, primeiramente, no conhecimento da sua vontade, expressa na Escritura, sem a qual não é possível o discernimento, a análise e o emprego dos princípios de certo e errado, que o levará ao juízo correto e a uma vida reta diante de Deus e do próximo.

O termo normalmente utilizado para se referir à sabedoria no hebraico é"hokmâ", e para sábio, "hãkãm", cobrindo toda uma gama de experiências humanas, tanto na aptidão de exercer uma atividade [Ex 31.3,6; Is 10.13; Dt 34.9], como na sagacidade, que é a capacidade de compreensão da realidade, ainda que oculta [2Sm 20.22], como na prudência, a virtude que nos faz prever e evitar as faltas e os perigos e que nos leva a conhecer e praticar o que nos convém [Sl 37.30; Pv 10.31, Sl 90.12]. No caso do cristão, representa ser obediente aos princípios morais e éticos bíblicos, e a evitar as práticas que ferem esses mesmos princípios, revelando que a sabedoria nas questões práticas da vida é derivada, originada, da revelação divina [Is 33.5-6; Pv 2.6]. 

No NT ela é expressa pela palavra grega "sophos" e, normalmente, se relaciona à capacidade de um homem abordar a vida, decorrente da aliança com Deus, logo, é considerada uma dádiva de Deus.

UM EXEMPLO DE SABEDORIA

O exemplo de um homem sábio é o do rei Salomão, filho de Davi. No início do seu reinado, Deus apareceu-lhe em sonho, e disse-lhe: "Pede o que queres que eu te dê" [1Rs 3.5]. Salomão pediu: "A teu servo, pois, dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal; porque quem poderá julgar a este teu tão grande povo?" [v.9]. Deus assegura então a Salomão que, não somente o faria sábio, mas que nem antes nem depois dele jamais apareceria homem mais sábio do que ele: "Eis que fiz segundo as tuas palavras; eis que te dei um coração tão sábio e entendido, que antes de ti igual não houve, e depois de ti igual não se levantará" [v.12]. A primeira pergunta que vem a mente é: Salomão foi mais sábio que Jesus [comparação que os detratores do Cristianismo fazem com Mt 12.42]? A Bíblia não afirma isso, e o trecho lido não faz alusão a Cristo. Sabemos que Cristo era Deus-homem, o Verbo encarnado, e de que, portanto, não era um homem comum. Sua sabedoria era divina, eterna, infinita, imutável e perfeita. Em Cristo não havia duas pessoas, mas apenas uma, a do Verbo. Duas naturezas, a divina e a humana, mas uma única pessoa. Não há dualismo em Cristo. Pois, sendo Deus, nada relativo à sua natureza humana afetaria a sua natureza divina; temos em Cristo o Deus-homem, não o Cristo Deus e o Cristo homem, como se fossem duas pessoas distintas subsistindo em uma. Muitos afirmam contradição onde não há. O fato é que eles partem do falso pressuposto de que Cristo é apenas um homem e, logo, como poderia a Bíblia afirmar que um homem não encontra igual entre os homens, e, mais à frente, afirma que há um homem maior do que aquele? Contudo, se eles não lessem a Escritura apenas à procura de contradições, se a lessem como o livro inspirado e a palavra do próprio Deus, perceberiam que Cristo não é apenas um homem, mas o Verbo encarnado. Como a premissa deles é falsa, todo o argumento é falacioso e, pior, em sua soberba, falam do que não conhecem e nem querem conhecer. São os ignorantes que não querem abandonar a ignorância, antes querem perpetuá-la, aliciando incautos e fazendo-os repetir seus delírios.

Quando Deus distingue a sabedoria de Salomão da de todos os homens, fala dos seres criados; poderíamos dizer, dos homens comuns, aqueles que estão no mesmo nível do filho de Davi, que carecem e necessitam desesperadamente de Deus. A sua afirmativa está presa ao fato de que Salomão foi um homem cujas decisões seriam tomadas mediante o conhecimento claro, direto, imediato e espontâneo da verdade. Ele teria uma percepção, pressentimento, ou melhor, a intuição do que fazer, e assim decidir com justiça. O relato da disputa de duas mulheres por uma criança, em que ambas se diziam a mãe do bebê, revela-nos o grau de sabedoria ao qual Deus está se referindo [1Rs 3.16-28]. Não o conhecimento e o discernimento infinitos, perfeitos e eternos que o Senhor Jesus tem, mas, simplificadamente, a capacidade que Deus deu ao rei de julgar corretamente. Parece-me mais a capacidade de avaliar e decidir pela verdade, o que não quer dizer que ele detenha a verdade, nem a conheça exaustivamente. Como se dirigiu a Deus, o seu pedido foi limitado ao julgamento das coisas terrenas, das disputas humanas, e a sentenciar retamente, diante de um povo tão grande. Ainda que as decisões fossem complexas, como o exemplo citado das mães e do bebê. A sabedoria de Salomão era divina [v.28], no que se referia à justiça em Israel, mas de forma alguma quer dizer que Salomão fosse sobrenaturalmente sábio, infalível e perfeito como Cristo. O fato dele decidir mal em relação à própria vida pessoal, ao cuidado da sua casa, e quanto ao permitir que se erguessem altares de deuses pagãos em Israel, os quais eram adorados livremente, demonstra que essa sabedoria não era exaustiva, nem abrangente, nem perfeita em unidade. 

A SABEDORIA EM DEUS

Sendo Deus sábio, a sabedoria é necessária e essencial em seu ser, de forma que ele não poderia ser o que é sem ela. Como já foi dito, a sabedoria divina é perfeita, eterna, infalível e imutável; de forma que encontram-se escondidas, em Deus e em Cristo, todos os tesouros da sabedoria e da ciência [Cl 2.3]. Ela é originária em Deus, e somente ele a detém. Ainda que os homens possam ser considerados sábios em vários momentos, somente Deus é sábio eternamente. O homem pode ter momentos de sabedoria, mas a sabedoria não se confunde com o ser humano, e torna-se inadequado afirmar que o homem seja sábio. Temos "flaches" de sabedoria, em que nossas decisões e ações refletem o conselho divino, mas, na maioria das vezes, estamos distantes, e acabamos produzindo a insensatez e o desatino. Ela também se desenvolve no homem, é progressiva, adquire-se com o passar dos anos. Em Deus, ele é a sabedoria, e somente ele pode ser chamado de sábio, em seu sentido absoluto, como uma propriedade ou qualidade singular, própria e exclusiva dele. Diferente do homem, Deus não aprende nem exercita a sua experiência. Deus sabe e é eternamente. A sabedoria é inerente a ele, não podendo ser acrescentada nem diminuída, como se houvessem graus de sabedoria em Deus. Deus tem toda a sabedoria, que em sua perfeição e eternidade é imutável e infinita. Muitas vezes a infinitude nos dá uma ideia de desenvolvimento, de progressão, um conquistar no tempo e no espaço, porém, tudo que progride é finito, e o finito jamais será infinito. Deus é infinito, e somente ele conhece a sua infinidade. Assim como somente ele conhece a sua sabedoria, que para nós é incompreensível em sua totalidade. Como está escrito: "Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito" [Sl 147.5]. E, como poderia o homem medir a sabedoria divina? De maneira alguma, porque quão profundas são as riquezas, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos [Rm 11.33]. Resta-nos quedar admirados e fascinados com tão grandiosa revelação, sabendo que, se queremos ser homens sábios, devemos buscá-la em Deus, que é o único que a tem. Tiago nos diz para pedi-la, pois Deus a dá liberalmente. Mas, primeiro, devemos reconhecer que a temos em falta; e nos humilhar diante daquele que a tem em abundância, e a dará certamente.


Sábio também é aquele que, ao invés de confiar na própria sabedoria [o que em si, já é sinal de sabedoria], e enganar-se a si mesmo, deposita a sua confiança em Deus, sabendo que a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus, para que nenhuma carne se glorie perante ele [1Co 3.18-21; 1.29]. Por isso, ninguém é chamado de filho por ser sábio, no sentido em que o mundo conhece, porque ele não pode conhecer a Deus por sua sabedoria. Muitos dos que foram chamados, a maioria de nós, não o foram por serem sábios, poderosos ou nobres na carne; porque, como está escrito, aprouve a Deus escolher as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, e as que não são, para aniquilar as que são [1Co 1.26-27]. Se buscamos saber aos moldes do mundo, nosso esforço será infrutífero. Mas se empenharmo-nos em aprender de Deus, através da sua santa palavra, quão sábio seremos, pois cumpriremos a sua vontade de viver neste mundo em santidade, separados para ele. Se é do Senhor que vem o conhecimento e o entendimento [Pv 2.6], busquemo-lo, e ele se revelará a nós, dando-nos gratuitamente o que granjeamos: que Cristo faça abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência, descobrindo-nos o mistério da sua vontade [Ef 1.8-9], e, repetindo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência.