quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A santidade de Deus

INTRODUÇÃO

Muito mais do que ser interpretada como apenas uma qualidade moral ou ética de Deus, a sua santidade é outro atributo que o caracteriza como Deus. Sem ela, ele não seria o que é, pois, assim como o Pai é santo [Is 57.15, 1Pe 1.15-16], Cristo também é o Santo e Justo [Is 41.14, At 3.14], e Deus Espírito é chamado de o Espírito Santo de Deus [Ef 4.30]. Temos que a santidade é um atributo sem o qual Deus não seria Deus, e que também é compartilhado necessária e essencialmente pelas pessoas da Triunidade; de forma que é considerado o mais nobre, enfático e exaltado atributo, revelando a majestade e distinção da sua natureza e caráter. É-se necessário dizer que esta distinção tem uma conotação muito mais pedagógica, tanto na Bíblia como na Teologia Cristã, pois sabemos que em Deus não há distinção entre os seus atributos; mas conhecendo-nos como ele nos conhece, foi assim que se revelou, para que pudêssemos conhecê-lo mais adequadamente, e pelo qual ele seria mais excelentemente glorificado. Também, porque, certamente, esse é o atributo que mais nos aproxima do ser divino, e a sua ausência nos afasta; para que pudêssemos dar, ainda que não absolutamente, a devida relevância à santidade, e reconhecer a necessidade de tê-la para que fôssemos novamente ligados a Deus, pela obra sacrificial e redentora de Cristo. Ao mesmo tempo em que ele se revela como é, e quem é, ordena-nos a ser como ele: santo! Como o Senhor disse a Israel: "E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e vos separei dos povos, para serdes meus" [Lv 20.26]; no que foi repetido pelo apóstolo: "Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo" [1Pe 1.16].


A santidade, como atributo divino comunicável aos homens, em face da nossa natureza pecaminosa, é um processo laborado pelo Espírito Santo, não podendo, jamais, ser considerada em seu caráter absoluto. Para que o homem se aproxime de Deus é necessário que não haja mancha ou pecado, o que nunca acontecerá por nossos esforços. Ainda que desejamos a santidade, busquemo-la, e sintamos os seus efeitos na alegria de resistir ao pecado e ter comunhão com Deus, estamos constantemente suscetíveis a cair em afronta contra ele. É um sobe e desce em nossas vidas, e como as decidas são mais fáceis, e as subidas requerem esforço, temos sempre a impressão de que nunca chegaremos ao topo. Mas o fato é que estamos lá, e essa é uma gloriosa vitória, ainda que não tenhamos mérito algum nela; pois ela é completamente realizada por Deus, e somente possível pela obra redentora do nosso Senhor Jesus Cristo na cruz. 

Com isso, estou a dizer que uma santidade "relativa", em que ora estamos no estado de santidade [e esse estado de santidade é discutível, pois em nossa imperfeição, muitas vezes estamos diante do pecado sem reconhecê-lo; e pecamos sem a noção do pecado], ora estamos no estado de impiedade, não é capaz de nos aproximar de Deus, muito menos de nos relacionarmos com ele. Até mesmo o arrependimento seria impossível, se Cristo não nos intermediasse e intercedesse. Acontece que a intermediação e intercessão de Cristo por nós é eterna, portanto a sua interposição entre Deus e nós é absoluta, e somente por ela é possível que nos relacionemos e nos acheguemos a Deus. Do ponto de vista divino, sempre fomos e seremos absolutamente santos, pois a obra redentora do seu Filho Amado, ainda que realizada no tempo, tem o seu caráter imutável e eterno; e o seu cumprimento absoluto resultou no perdão irrevogável, e na comunhão ininterrupta que temos com o Criador. Mas por conta do pecado, ela nos parecerá temporariamente cortada, como se estivesse desligada, e somente retomará o seu curso após o arrependimento para o perdão. Na perspectiva humana, a nossa santidade estará sempre condicionada a ele, posto sermos pecadores miseráveis, necessitados do favor divino: a sua graça infinita e eterna. Para Deus, como o salmista disse, fomos feitos eternamente mais brancos do que a neve, pois lavados e purificados pelo sangue do Cordeiro [Sl 51.7]. É o que Paulo afirma, ao falar da nossa predestinação e adoção por Jesus Cristo, pelo qual somos agradáveis a Deus, santos e irrepreensíveis, eleitos antes da fundação do mundo, segundo o beneplácito da vontade divina [Ef 1.4-6]. 

Com isso quero dizer que não é necessário fazer nada em favor da nossa santidade? Claro que não! O apóstolo nos adverte: "Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" [Hb 12.14]. A ordem é para que sejamos santos, não a negligenciando, antes batalhando por ela. De uma forma misteriosa, Deus opera em nós tanto o querer como o efetuar, mas nós temos de querer e fazer, e seguir querendo e fazendo, e assim sentindo, cada vez mais, que somos transformados de glória em glória na sua imagem, refletindo como um espelho a glória do Senhor [2Co 3.18]; que somente acontecerá quando ocupar-nos em conhecer e entender o Deus santo, levando-nos a reconhecer a nossa miséria e imundície, e a ansiar chegar à perfeição do Santo.

A TEOLOGIA DO PECADO
Infelizmente, o mundo nunca deu valor à santidade, e para escândalo do nome de Cristo, muitos dos que se dizem seus discípulos também desprezam-na, apelando para uma "graça barata", em que o pecado, seja qual for o seu grau de malignidade, apenas acentuará a obra redentora. De forma que, ao ver deles, deve-se realizar um esforço sobre-humano para se pecar mais e mais, buscando-se uma overdose de iniquidade, e assim Cristo será exaltado e sua graça louvada pelo muito pecado cometido. Essa distorção apenas revela que tais proponentes da "teologia do pecado" não passam de inimigos da cruz, zombadores, querendo justificar sua rebeldia e transgressão com o mais absurdo dos argumentos, como se o Evangelho fosse bom apenas para nos adequarmos à nossa vida, e não o suficiente para transformá-la, e nos tornar em novas criaturas, que tenham a mente de Cristo. 

Torna-se urgente a retomada da sã doutrina e volta ao Evangelho, para que o homem seja livre das amarras do pecado; e Deus glorificado por sermos seus imitadores. 

A SANTIDADE, LEI E OBEDIÊNCIA 
No mundo de hoje disseminou-se a ideia de que qualquer coisa pode agradar a Deus. Desde que o homem a realize sinceramente [e veremos que muitos erros são cometidos sinceramente e por convicção; e de que, mesmo o pecado também é cometido sincera e convictamente], não importa o quão distante ele esteja dos preceitos divinos, Deus se agradará não pela obediência, mas pelo desejo do homem em agradá-lo. Essa perversão tem o objetivo de "liberar" o homem da submissão e da necessidade de se cumprir a vontade divina, dando vazão à sua independência de Deus que, em sua condição menos danosa [se é que se pode chamá-la assim], permite ao homem conduzir o seu culto a Deus ao invés de ser conduzido por Deus a cultuá-lo corretamente. O que se vê hoje são formas de adoração alheias e em oposição ao ensino bíblico, onde Deus não é glorificado mas o homem, que pode se expressar e extravasar-se livremente num culto cujo padrão é a autoadoração. 

Por isso, Deus nos deu exemplos de que a adoração verdadeiramente santa é a realizada em espírito e em verdade [Jo 4.23-24]. Veja que não se adora apenas em espírito, mas também em verdade. Há uma ênfase muito grande na adoração como manifestação subjetiva do homem, em que as suas sensações terão um lugar primordial. Arrepios, êxtase, catarse, emoções extravagantes são sinônimos de adoração. Não importam os motivos que levaram a isso. Nem que o resultado seja apenas uma "evacuação" da alma, como tirar um "peso" interior. Mas Cristo nos diz que espírito e verdade são fundamentais para a adoração. Um não subsiste sem o outro; de maneira que a adoração morre no altar de Deus se não atuar o Espírito, o qual é a verdade, e o espírito do homem está morto sem ela, pois a verdade é o próprio Deus. 

A fim de que o homem soubesse qual o padrão moral e ético divinos, Deus nos deu a sua lei. Especificamente ela foi dada à nação de Israel, o povo separado por Deus para ser seu, em meio ao mundo pagão e idólatra da época. Ali temos preceitos e normas que distinguiriam os judeus dos demais povos, revelando que eles adoravam ao Deus vivo e verdadeiro, e não aos falsos deuses. Todo aquele código tinha por objetivo revelar que ali encontrava-se um povo separado para e ao serviço do Senhor. E que era exortado continuamente a ser santo como Deus era santo; a afastar-se de toda a iniquidade. No sentido moral, significava que Israel deveria manter-se distante, afastado de toda a prática que infringisse os preceitos divinos, de todo o pecado, o qual era, e ainda é, abominação a Deus. Quem desobedecesse estaria sujeito às sanções e punições que o infrator sofreria. Deus se revelava misericordioso e gracioso ao escolher um povo, mas esse povo deveria ser santo, do contrário, a ira e a justiça santas de Deus estaria sobre ele. Na lei estava revelada, ainda que resumidamente, qual era o padrão da santidade divina, e o que os homens deveriam fazer para imitá-lo. É sabido que, em nossa imperfeição e mutabilidade, é impossível cumpri-lo. Coube a Cristo fazê-lo por nós, o justo morrendo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus [1Pe 3.18]. 

Vejamos o caso de Uzá [2Sm 6.1-11]. A arca da aliança havia sido tomada pelos filisteus como humilhação máxima, após derrotá-los e matar mais de 30 mil judeus. Então Davi, após derrotar os filisteus, buscou a arca da aliança a fim de levá-la para a sua cidade [1]. A arca foi colocada num carro puxado por uma junta de bois, o que era proibido pela lei, já que a arca só poderia ser transportada pelos levitas que a conduziriam por varais de acácia revestidos por ouro e enfiados nas quatro argolas de ouro colocadas nos seus lados [Ex 25.10-16]. Aqui temos o primeiro erro, ou desobediência. Então, quando os bois tropeçaram, a arca pendeu, como se fosse cair, e Uzá tocou-a, tentando evitar que fosse ao chão. Naquele mesmo instante, a ira de Deus se acendeu contra Uzá, "e Deus o feriu ali por sua imprudência; e morreu ali junto à arca de Deus" [v. 7]. Sempre que lia essa passagem me vinha à mente que Deus não deveria ter agido assim. Afinal Uzá teve boas intenções; não querendo que a arca caísse. Porém, quando começa-se a compreender o real significado do que vem a ser a santidade divina, compreendemos que qualquer desobediência é um ataque direto a Deus. Por menor que seja, por mais irrelevante que pareça, Deus, em sua santidade, não pode ser ofendido, nem mesmo através dos objetos que ele estabeleceu como símbolos da sua presença. De nada adiantaram as boas intenções de Uzá, ele havia desobedecido um preceito divino e, mais do que isso, ele foi imprudente; faltou-lhe tino, juízo, cautela, saber avaliar corretamente a situação a fim de não infringir a lei. Em suma, Uzá foi descuidado, relapso, desobediente, ainda que estivesse imbuído do melhor dos propósitos. Acontece que essa "boa-fé" somente pode ser percebida pelos nossos olhos frágeis e enganosos. Aos olhos de Deus, ele cometeu irreverência, violando a sua santa lei [Rm 7.12]. 

Nos dias de hoje, onde praticamente tudo é considerado "agradável" a Deus, o exemplo de Uzá é um alerta para que não se negligencie a obediência; sabendo que a lei de Deus é eterna e o padrão através do qual Deus estabeleceu como poderíamos imitá-lo, e assim, pelo poder do Espírito, sermos transformados dia após dia na imagem do seu Filho Amado. 

Resumindo, quero dizer que a obediência é o sinal de santidade. Não que sejamos sempre obedientes, porém, quanto mais nos aproximarmos da obediência de Cristo, mais glorificaremos a Deus no processo de nos tornarmos como ele; uma obra que culminará com a nossa transformação na imagem e semelhança do nosso Senhor. Ainda que não compreendamos certas ordens, como soldados é-nos exigido cumpri-las. A parábola dos dois filhos [Mt 21.28-32], parece-me elucidativa do que digo. Como também já falei, o arrependimento nos leva à santidade através do perdão, com o qual temos comunhão com Deus, mas o arrependimento também nos leva à obediência [v. 29]. Mas tanto o arrependimento como a obediência são reflexos da santidade, de forma que há uma relação intrínseca entre eles de precedência e consequência; atrelados de maneira que torna-se difícil distinguir o que é causa do que é resultado. O fato é que santidade, arrependimento e obediência são indissociáveis; e Deus nos exorta a tê-los como prova do caráter de Cristo formando-se em nós. 

A SANTIDADE DE DEUS 
Deus é santo. Mas o que significa ser santo? A palavra hebraica que define o "ser santo" é "qadash", derivada da raiz "qad", denotando separar ou cortar. Logo, santo, quer dizer aquele que é separado ou foi cortado de algum lugar. A santidade humana refere-se ao homem que foi "separado" para Deus, e, também, de que ele foi separado do pecado; uma coisa implicando na outra. Parece contraditório que sejamos chamados de santos por Deus, e vivamos uma vida no pecado [ainda que não integralmente ou mesmo eventualmente]. Como sempre, há de se distinguir o que é eterno e imutável do que é temporal e mutável; do ser perfeito e infinito de Deus e da nossa imperfeição e finitude. Certo é que Deus separou para si um povo santo, que para ele já é e sempre foi santo, porque a sua vontade assim determinou. 

A nossa santidade é derivada e adquirida de Deus, e é ele mesmo que a opera em nós, de forma que a boa obra iniciada se aperfeiçoará até o dia do nosso Senhor Jesus Cristo [Fp 1.6]. O alvo da vida cristã é a santidade, certamente o atributo mais importante, e que nos liga maravilhosamente a Deus. 

Interessante que a Bíblia relata uma série de objetos que eram considerados santos, posto que separados, quer dizer, tirados do seu uso comum como objetivo exclusivo de serem utilizados no serviço de Deus. Temos que as vestes dos sacerdotes eram santas [Ex 28.2]; o lugar do sacrifício era santo [Ex 29.31], os vasos utilizados no templo eram santos [ 1Rs 8.4], e aí por diante. Nesse sentido, tudo o que é separado por e para Deus é santo. Acontece que todas as coisas santas, mesmo o homem, não o são por suas naturezas, mas porque a vontade soberana de Deus estabeleceu que assim seriam. É a sua vontade santa que definirá o que é e o que não é santo, sem que nenhum outro padrão possa ser usado para estabelecer o critério de santidade. E isso somente é possível porque Deus é santo, em seu ser, sua natureza nos revela que ele é absolutamente distinto de toda a Criação. Todos os seus predicados denotam a sua santidade, revelando-nos a singularidade do seu ser, e forma como ele transcende todas as criaturas, não se confundindo com nenhuma delas, estando acima delas, sendo exaltado e glorificado como Senhor supremo, majestoso e excelso, ao qual todos devem exaltar, glorificar e honrar. Deus portanto é santo em sua unidade, na relação entre as três pessoas, e pelo fato de que tudo o mais foi criado pela sua vontade e poder, estando sujeito a ele. Nesse sentido, nenhum de nós pode ser santo, pois apenas Deus é. 

Pode-se falar também de um aspecto específico da santidade divina, o caráter ético e moral que nos é revelado pela Escritura. Nesse sentido derivado, temos que Deus é santo porque estabeleceu leis santas para as suas criaturas, segundo a sua própria santidade. A Lei de Deus é santa porque ele é santo, e por ser santo, tudo o que ele faz e ordena também é. De forma que Deus também está separado de todo o pecado, e na plenitude do seu ser absolutamente santo não pode ter comunhão com ele [o que se pode chamar de santidade negativa], porque ele é a perfeição e a pureza majestosa ética [sentido positivo]. Como Berkhof define, a santidade ética de Deus é virtude da qual ele eternamente quer manter e mantém a sua excelência moral, aborrece o pecado, e exige pureza moral em suas criaturas" [2]

Deus é luz, e dissipa todas as trevas, para que, como os serafins [3], com o rosto e os pés cobertos clamemos: "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória" [Is 6.3]. 

Notas: [1] A Cidade de Davi é considerada a parte mais antiga de Jerusalém. Ela está situada sobre uma formação montanhosa na parte sudeste à atual cidade velha de Jerusalém nos dias de hoje;
[2] Teologia Sistemática, Editora Cultura Cristã, pg. 67;
[3] Interessante que os anjos eleitos, mais do que os homens eleitos, se escondem envergonhados diante do trono de Deus, cobrindo rosto e pés em sinal de submissão e reverência. E eles não são pecadores, mas puros como Deus os concebeu. Por que é tão difícil para nós, miseráveis e homens de lábios impuros e que habita no meio de um povo de lábios impuros, como diz o profeta, não nos sentimos envergonhados diante daquele que tudo vê? E reconheçamos a nossa pequenez e insignificância diante do esplendor da santidade de Deus?